Rolê Econômico: Inflação, por quê devo gostar dela?

No mês passado tivemos nossa primeira deflação em 11 anos, uma notícia muito boa frente a alta inflação que passamos em um passado recente, chegando a bater na casa dos dois dígitos ao final de 2015. Bom demais! Podia ter deflação sempre, não é? Imagina, todos os meses os produtos e serviços ficando cada vez mais baratos? Só de manter o dinheiro no seu bolso ele já estaria se valorizando... um sonho?
Isto estaria mais para um pesadelo, vem que vou te contar o motivo.

Uma das palavras que está na moda no atual cenário econômico é a bendita inflação. Por mais que em um primeiro momento, possa parecer estranho, a inflação é sim uma coisa boa. Quando controlada.

Você leitor deve estar pensando: 

"Interna o maluco, o cara tá falando que inflação é bom?"

Antes de entrarmos nesta discussão, vamos explicar para os leitores que não sabem o que é a inflação, do que se trata.



A INFLAÇÃO é o aumento generalizado dos preços de produtos e serviços.
Então, cada vez precisa-se de mais e mais dinheiro para conseguir comprar as mesmas coisas. Dizem que a inflação deixa as pessoas mais fortes, há 20 anos eram necessários 2 adultos para carregar R$ 100,00 em compras no supermercado. Hoje, uma criança consegue carregar tudo.
Colocando em números, para comprar o que R$ 100,00 compravam em 1997, seriam necessários hoje R$ 389,00...
Maldita bandida, hein?

No Brasil, existem vários índices que medem os aumentos dos preços. Para nós, consumidores, o mais importante é o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor - Amplo), que é medido pelo IBGE e calcula o aumento dos preços dos produtos e serviços consumidos pelas famílias com renda entre um e quarenta salários mínimos. Então quando você escutar o Bonner falando:

"A inflação em julho foi de 0,32%." 

Significa que a cesta de produtos e serviços consumidos pelas famílias com renda entre um e quarenta salários mínimos subiu 0,32%. Não que todos os produtos tenham subido esse valor(o tomate pode ter subido 3%, o leite ter caído 4% a energia elétrica ter subido 1%), mas que na média, esse foi o acréscimo.

Então, quanto maior a inflação, menos o seu dinheiro vale.


"Cara, no começo você falou que a inflação é uma coisa boa. Você falou, falou, falou e até agora não vi um ponto positivo, me ajuda aí vai."  

Agora imagine um cenário, com desemprego crescente, juros altos, pessoas endividadas e de brinde uma crise política (Qualquer semelhança é mera coincidência). Como você acha que os consumidores reagirão? As pessoas estarão com medo do que virá, deixarão de gastar seu precioso dinheiro para ter uma certa segurança diante de um futuro incerto.
Com grande parte desempregada, e as pessoas que estão trabalhando não querendo gastar, os lojistas venderão cada vez menos e os estoques começarão a se acumular. Para vender, qual a saída?

"Deu a louca no Ricardo! Preços como nunca visto na história desse país!"

E é dada a largada a queda dos preços, se o Ricardo ficou louco e mandou abaixar o preço, a Luiza vai fazer o mesmo, ela não quer ficar para trás. Com os preços em queda as pessoas irão segurar um pouco mais o consumo, para ver até onde essa queda de preços vai. Com as vendas caindo, os empresários terão que diminuir mais ainda os preços para tentar reagir de alguma forma.

"Quanto mais os preços caem, menos gente compra, esperando que eles baixem mais ainda. Só que, quanto menos gente compra, mais os preços caem..."

Como bem descrito por Alexandre Versignassi, podemos observar o ciclo infernal da deflação instalado:

"Se todos os preços ali caem o tempo todo, o dono acaba vendendo a comida por um preço mais baixo do que pagou pelos ingredientes. No mês seguinte, ele até gasta menos com fornecedores, já que os custos também caem. Mas depois tem de abaixar mais ainda os preços na hora de vender - os concorrente, afinal, estão baixando os deles sem parar. É o inferno dos donos de restaurante.
Para arranjar dinheiro emprestado no inferno, você tem de ir até o Banco do Diabo. À primeira vista, nem parece Banco. Parece um paizão mesmo. Lúcifer empresta sem cobrar juro nenhum. Mas você sabe como é fazer pacto com o tinhoso..."

Com a constante queda de preços, você não conseguirá a receita necessária para arcar com o empréstimo feito, mesmo que seja um empréstimo sem juros. Seus preços serão cada vez menores. Te levando a falência. 
Com mais desemprego, as pessoas tendem a consumir menos ainda, alimentando o ciclo vicioso levando mais e mais empresas a falência. No fim, o tinhoso cumpriu sua missão.

A inflação desde sempre foi e é tratada como vilã. Realmente ela o é quando o governo perde o controle, mas uma inflação controlada tem sua importância para a economia, pois faz o dinheiro circular. Afinal, é melhor empregar o dinheiro em algum lugar, que guarda-lo em seu colchão.